2 de dezembro de 2013

A relatividade do tempo

Todo mundo tem um lugar especial, um lugar em que você se sente segura, aonde nada pode te abalar, machucar ou fazer você perder sua paz interior. O meu costumava ser aquele ponto logo depois da arrebentação da onda, ali eu era inteiramente feliz, eu não ouvia nada além de ondas quebrando e não via nada além de formigas na areia e a imensidão do mar e apesar de ficar flutuando eu me sentia mais firme do que quando pisava no calçadão de Copacabana. Eu costumava ser feliz. 
Mas - tudo na vida tem um mas porque se chama V-I-D-A e nela não existe felicidade plena - meu porto seguro foi arrancado de mim e hoje me atormenta a cada momento que eu tento uma reaproximação. 
Eu era adolescente e como qualquer um achava que nada de mal me aconteceria, eu era invencível, foda, fiz 9 anos de natação, venci alguns campeonatos de escola e tinha certeza absoluta que a única forma impossível de morrer para mim seria afogada, afinal eu era a nº 1 nos campeonatos do colégio MAS eu estava completamente errada e descobri isso da pior forma possível. Pois é, eu quase morri afogada e a sensação de falta de ar e desespero me atormentam cada vez que eu encosto meu pé no mar. 
Estava em saquarema e cometi o erro de ir para depois da arrebentação numa praia aonde o mar é aberto, a maré subiu mas eu era a nadadora número um e achava que sairia dali no momento que quisesse, eu comandava o mar e não o oposto. Furei em torno de 7 ondas seguidas e meu porto seguro ( o ponto depois da arrebentação ) ficava cada vez mais distante, eu tentava alcança-lo insistentemente e o meu maior medo naquele momento era levar um caixote e ir para longe do meu lugar especial para sempre. Já havia perdido as contas de quantas ondas eu já tinha encarado quando comecei a ficar sem fôlego e a chamar a atenção do salva-vida, eu não estava me afogando mas já estava tão distante da terra firme que se passassem mais alguns minutos eu certamente não perderia somente o meu porto seguro. O desfecho da história é óbvio porque se você esta lendo isso agora significa que eu sobrevivi a fúria do meu melhor amigo, mas eu não comecei a escreve esse texto para falar sobre o meu trágico e cômico afogamento ou sobre a burrice de confiar demais, apesar que isso seria uma ótima metáfora.
O ponto é que essa memória de quase afogamento, a sensação mais realista  que a minha própria vida e o medo que toma conta de cada célula do meu corpo quando entro no mar provavelmente não teria sido gravado pela minha mente se eu tivesse aceitado que eu não era a n° 1 e que eu nunca dominei o mar, se eu tivesse me dado por vencida a tempo, apenas teria levado um caixote dos feios e ido parar no beira-mar com mais areia no cabelo do que na praia, seria sufocante mas rápido demais. Eu já havia superado outros caixotes e superaria mais um. Porém, eu decidi prolongar o meu sofrimento tentando alcançar o que não era meu e que eu jamais teria, era algo que não me pertencia e eu queria te-lo e estava disposta a abrir mão da minha vida se preciso. 
eu não o venci. eu não o tive. eu jamais o terei.